Algumas expressões são tão comuns em Soterópolis que nem percebemos que elas não existem no resto do Brasil ou na norma culta. Colhi essas belas frases com esmero, e aviso que depois de lê-las não mais as verão do mesmo jeito. Aperte o cinto e prepare-se para o choque:
Dejunto
Por mais incrível que pareça, a expressão dejunto não está no dicionário. Pois é. Felizmente todos nós sabemos o significado de forma osmótica, que se traduz por "próximo à/ao" ou "ao lado de".
"O correio fica dejunto da padaria." (O correio fica ao lado da padaria.)
"Estacione dejunto daquele carro." (Estacione próximo àquele carro.)
Defronte
Esse é um dejunto cara-a-cara. Embora esse pareça mais estranho que o dejunto, ele tem registro no dicionário. Tem mesmo, sério. Significa "em frente de".
"Fica logo ali defronte os camelô." (Fica logo ali em frente aos ambulantes.)
domingo, 30 de maio de 2010
sexta-feira, 21 de maio de 2010
O Poder da Cura
Alguns antigos vizinhos meus, talvez pensando no bem estar geral da nação ou em conforto financeiro mesmo, abriram uma igreja. O culto estava bem popular, havia bastante gente frequentando. Com a prosperidade do negócio, o fato de terem sido os empreendedores começou a subir para as suas cabeças e começaram a se sentir "os escolhidos". Como Neo de Matrix, aquela realidade fictícia tinha lhes dado poderes sobre-humanos, como falar com os mortos, interpretar a bíblia à sua conveniência etc. Bom, todos os dias esses cidadãos jogavam baralho à noitinha. Numa dessas noites, um deles começou a suar frio, passar mal. Estava tendo um infarto. Em vez dos outros chamarem a emergência, resolveram testar seus dons: "Cura ele, Jesus", "Não leva ele, Jesus", "Em nome do Senhor". Pediram, pediram, mas o homem continuava a perecer. Alguém que via a cena ligou para o SAMU, mas já era tarde demais e mais uma vida tinha sido ceifada. Amigos amigos, negócios à parte.
terça-feira, 11 de maio de 2010
Quebrança
Eu lhe disse que não bulisse. Você buliu assanhou... Pois é, garotada, Pagode! O ritmo que parece mover muita coisa nessas terras. É como pôr o dedo na tomada. Quando começa a tocar todos começam a tremer e se sacodir. Acho que o grande começo foi com o GeraSamba, que depois virou É o Tchan, e que depois de viajar o mundo todo desapareceu. Muitos desapareceram, e como ninguém mais foi procurar, continuam sumidos. Era incrível como esfregavam as nádegas no seu rosto pelo televisor. Se você encontrasse a dançarina na rua, de frente, nem reconheceria. As letras no tempo da boquinha da garrafa tinham duplo sentido. Elas traziam uma mensagem erótica translúcida, logo você não sabia se seus filhos poderiam ouvir aquilo ou não. Mas, em relação às obras-primas de hoje, a coisa mudou muito. Tiraram a ambiguidade do pagode de vez. Tire suas crianças da sala.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Verbos II
Continuando com a miríade semântica dos verbos baianos, hoje vamos ver uns casos interessantes. O uso desses verbos pelos aborígenes de SSA é bastante natural apesar da complexidade de interpretação, logo irá requerer maior atenção dos ouvidos não treinados. Sigam-me os bons:
Verbo Dar
Esse verbo é perigosissímo. Meu conselho é que não use ou tome bastante cuidado quando for empregar. O povo é malandro e sempre irá achar algum duplo sentido para insinuar que você é homossexual. Se não quer que ninguém saiba, tome cuidado. Todavia, o uso é livre em expressões já consagradas.
"Ô se dei de mal." (Eu me dei mal.)
"Vô dar um zig now no selviço." (Vou faltar ao trabalho.)
"Ouxi, dei tudo ao ladrão." (Lá ele.)
Verbo Coisar
Ao contrário do verbo dar, o coisar é para ser generosamente empregado. O objetivo desse verbo é corrigir aquele lapso de memória que ocorre quando você queria dizer uma coisa e dá um branco. Você sabe o começo, sabe o fim, mas não sabe a metade. O entendimento fica a cargo do contexto. Veja os exemplos:
"A piriguete tava coisando o cabelo." (A jovem aplicava produtos tóxicos nos cabelos.)
"Wallace coisou o negóço do carro." (Wallace fez manutenção[??] em seu carro.)
Acrescento que você pode usar como substantivo também pela mesma razão.
"Sei lá, o coisa lá do computador que tá ruim." (Ininteligível sem o contexto.)
domingo, 2 de maio de 2010
Segunda-Feira Gorda dos Mortos-Vivos
Final da tarde de domingo. O sentimento mórbido de que amanhã é segunda-feira, dia de labuta, começa a nos saturar. Faustão tagarelando na televisão como sempre... Isso é comum em todos os lugares, exceto em um: Ribeira. Aqui o fim de semana dura três dias. Domingo na verdade é um préludio da Segunda-Feira Gorda da Ribeira. Os moribundos da praia de domingo jogam a água morna da poça no rosto, batem a areia das havaianas e descem pro pagode. Teoricamente, deveria haver apenas um evento desse por ano, após a Lavagem do Bonfim, mas na prática a história é outra. O povo tem uma disposição incrível para festas. O âmago dessa acontece no fim de linha. Os carros se alinham lado a lado, abrem os porta-malas e tocam as músicas altas o suficiente para chegar até os selenitas na lua. A vibração então atrai outros espécimes ao local, como piriguetes, bráus e isopôs. Eles bebem, cantam e se misturam a noite inteira. Ah, como queria não ter responsabilidades para poder aproveitar essa maravilha de Salvador.
Assinar:
Postagens (Atom)
